Documentalismo

Ou a fotografia do fotógrafo

Será o documentalismo o patinho feio da família fotográfica?
De um modo grosseiro podemos incluir na fotografia documental algum trabalho de autor, o fotojornalismo e a reportagem. Podemos dar 3 exemplos para contextualizar: Luc Delahaye, James Natchwey e Sebastião Salgado. O primeiro expõe em galerias, o segundo publica em jornais e revistas, o terceiro edita livros. São 3 fotógrafos, há algum artista?

A Fotografia, na arte contemporânea, tem vivido do documentalismo. Curiosamente são poucos os “fotógrafos” a fazê-la, são essencialmente artistas plásticos que a utilizam para comunicar. Isto faz-me pensar na evolução das performances, inicialmente concebidas e executadas por artistas plásticos e só hoje em dia (décadas depois) re-aproveitadas pelos artistas das artes cénicas…

Um fotógrafo que desenvolva um trabalho documental, se não o expuser numa galeria de arte conceituada ou num museu de arte contemporânea, nunca será considerado artista, pior… Se se atrever a publicar num jornal ou revista será relegado para o posto de mísero fotojornalista…

Luc Delahaye expõe (e vende como objectos artísticos) as suas fotos de guerra, James Natchwey publica fotos de cenários em crise como noticia, Sebastião Salgado vende livros e faz exposições de crianças a morrer de fome…

Se tudo isto tem um sentido custa-me encontra-lo… Moralismos à parte, tenho que começar por defender a máxima de Duchamp, a Fotografia na Arte está dependente primeiro (e antes de mais nada) pela atitude do fotógrafo, em segundo lugar o “fotojornalismo” é tão válido como qualquer outro trabalho documental (desde que bem feito, seja lá o que isso for), em terceiro lugar é dentro de casa que se criam estigmas e mal-amados… São os fotógrafos os primeiros a menosprezar a atitude, o trabalho ou o cargo dos seus companheiros “bate-chapas”…

O documentalismo sofre desde sempre de um terrível problema… O conceito de Verdade! Para os “amadores” é família e férias, para os fotógrafos é puro registo, para os artistas é arte conceptual…

É difícil aceitarmos que o mundo que nos rodeia possa ser arte como o vemos…

É difícil aceitarmos que um cadáver de um soldado morto (real, de carne e osso, realmente cadáver) seja arte…

É difícil aceitarmos que uma criança de ar melado, que morrerá de fome, seja arte…

É difícil aceitarmos que um retrato social, do mundo que procuramos não ver, seja arte…

A moral parte de cada um na sua subjectividade, mas, o documentalismo será sempre uma visão do mundo pelos olhos do fotógrafo, será sempre a Verdade de quem assina o trabalho…

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