ou como fotografar aquilo que ninguém vê
Com a chegada do comboio do Surrealismo, a fotografia já não é em si mesma, é uma técnica de expressão…
É curiosamente com a Photo Secession que as barreiras caem. Diziam os pictorialistas que a fotografia directa não era arte, responderam Stieglitz, Strand e amigos que era… É com os “caçadores”, que apontam a tudo o que mexe, que vem a liberdade de utilização desta técnica (a Fotografia).
Da procura de novos pontos de vista surge a abstracção do real, continuada pelo minimalismo de vários fotógrafos que procuram pormenores, deslocando-nos da realidade “habitualmente visível”.
A sequência de movimentos na fotografia, desde o complexo pictorialismo, passando pela simplificação da straight photography, chega à abstracção…
Mas como dirá Susan Sontag, o Surrealismo “triunfa na fotografia”.
Com os surrealistas valorizam-se os fotogramas e todo o abstraccionismo que a fotografia (directa ou não) permite.
Agora tudo é aceitável, até fotografar sem câmara…
A fotografia adquire liberdade total para se exprimir, já não é apenas o registo do momento que se procura, o enquadramento, a plasticidade das formas e dos volumes são agora também utilizados. Vivemos desde então sob esta divisão: fotografia-momento e fotografia-enquadramento.
Por um lado a fotografia que regista o tempo, por outro a fotografia que é intemporal e “regista o pensamento”.
Mas a fotografia enquanto representativa da realidade é também utilizada pelos seguidores do abstraccionismo e surrealismo. Aliás, o acaso sempre foi um tema ao gosto dos surrealistas.
Quem não se lembra das montagens ou das solarizações de Man Ray?
Se esta ligação entre Surrealismo e Fotografia parece paradoxal, há que pensar nos encontros visuais inesperados e efémeros dos fotógrafos. O “acidental” é surrealista!
Talvez seja esta a primeira prova visual de que afinal o mundo é surrealista!
A nossa visão do mundo está convencionada, educada, formatada…
Sempre que se reproduz uma visão diferente, pela manipulação ou apenas pela alteração do ponto de vista, o resultado é abstracto, não reconhecível aos nossos olhos (de imediato pelo menos).
Que o abstracto é uma forma diferente de “ler” a realidade já sabíamos… Talvez nos possamos perguntar qual a visão mais próxima da Verdade… Se a que observamos com os nossos sentidos, se a que sentimos com a nossa mente (alma ou espírito se quisermos ir mais longe)!
Referências bibliograficas:
História da Fotografia, Pierre-Jean Amar, Edições 70
A Fotografia, Gabriel Bauret, Edições 70
A câmara clara, Roland Barthes, Edições 70
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